Giroux e o “Segredo”

Estava sem inspiração para escrever algo de interesse, algo que julgasse relevante, para este blog. Foi quando me deparei com esta passagem, escrita por um dos meus intelectuais prediletos, Henry A. Giroux:

“Na medida em que a cidadania se torna mais privatizada, e os estudantes são cada vez mais educados para se tornarem sujeitos consumidores em vez de sujeitos sociais críticos, torna-se completamente imperativo que os educadores repensem a maneira como a força educacional da cultura opera para garantir e resistir a identidades e valores particulares” (Giroux, 2003, p.85).

As palavras de Giroux me parecem traduzir situações educacionais que são óbvias demais. Tão óbvias que já não nos parece fazer sentido algum contestá-las. De fato, o consenso em torno da maneira como concebemos a educação escolar – basicamente uma plataforma para que nossos estudantes possam competir mais efetivamente na busca por melhores posições no mercado de trabalho – já se encontra perfeitamente naturalizado para a maioria de nós, consumidores, de educação.

O restante do texto também vale a pena ser citado:

“Isso é especialmente importante quando a força da cultura dominante é definida por meio de sua submissão aos valores da economia, com sua ênfase na privatização e no evangelho da auto-ajuda, que funciona para enfraquecer as noções de bem público e de responsabilidade coletiva e colocar a culpa pela injustiça e pela opressão inteiramente nos ombros daqueles que são vítimas do infortúnio social” (Giroux, 2003, p.87-88).

Novamente: me chama a atenção a sagacidade de Giroux ao nos tornar problemático aquilo que já se faz tão “natural”: a privatização não deveria ser um caminho sem volta. A privatização da educação pode (e, de fato, tem) representado um esvaziamento do sentido de democracia participativa e crítica em nossa sociedade. E, o que mais me animou a citá-lo aqui, a menção aos pressupostos e às implicações conservadoras dos discursos da “auto-ajuda”. Principalmente no discurso educacional, este novo “evangelho” tem contribuído sobremaneira para realizar justamente aquilo que Giroux nos aponta: “colocar a culpa pela injustiça e pela opressão nos ombros daqueles que são vítimas do infortúnio social”.

Pois é. Acho que nunca gostei tanto de confirmar aquilo que eu já suspeitava, mas que não conseguia desenvolver de maneira tão clara. Assisti outro dia a uma cópia (pirata) daquele filme de auto-ajuda, O segredo”, e meu incômodo foi imenso, porque o livro homônimo e o filme parecem fazer enorme sucesso, parecem mobilizar um público amplo que encontra conforto para suas angústias existenciais. No entanto, a crença na “mentalização positiva” como solução para os males do mundo reifica a já conhecida e “natural” crença neo-liberal no sucesso individual. O lema é atingir o sucesso. E o “segredo” é que tudo isto depende da força dos bons pensamentos. O mundo ficará melhor assim. Obviamente, aqueles que fracassam, são aqueles incapazes de desenvolver bons pensamentos. Talvez não sejam até dignos de conhecer o tal “segredo”. O fato é que, através desta literatura de auto-ajuda, somos muito facilmente levados a acreditar que os infortúnios sociais devem ser creditados apenas às incapacidades individuais, ou à falta de maior empenho de cada um; nada que tenha a ver com um entendimento de que situações de opressão e injustiça social podem e devem ser compreendidas em função de relações desiguais de poder. No entanto, se há sofrimento no mundo, para os detentores d’O Segredo, tudo não passa de uma questão individual, de natureza privada.

Referência:

Giroux, Henry A. 2003. Atos Impuros: a prática política dos Estudos Culturais. Porto Alegre: Artmed.

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