Arquivo para dezembro, 2007

Nascidos em bordéis

Posted in Uncategorized on 28 de dezembro de 2007 by Eduardo Luedy

O que me incomoda em “nascidos em bordéis” (Born Into Brothels: Calcutta’s Red Light Kids, de 2004)? Sim, o que me incomoda no belo filme de Zana Briski e Ross Kauffman, ganhador de um Oscar por melhor documentário?

Exibimos este filme na última aula do dia 17/12/07, juntando as turmas de Arte-Educação com a de Novas Tecnologias da Comunicação e Informação (turma do professor Zé Mário). E me ocorreu de comentá-lo aqui no blog da nossa disciplina.

Sim, mas o que me incomoda em “nascidos em bordéis”?

Basicamente, o olhar colonial da fotógrafa norte-americana – que animada por intenções das mais nobres – vê quase sempre o “outro” – aqui representado pelas crianças indianas – como alguém inferiorizado pelas precárias condições de sobrevivência.

Não irei resenhar o filme aqui. O que me interessa é discutir o colonialismo que ressalta do filme de maneira inadvertida: a angústia e o inconformismo da fotógrafa que deseja ajudar as crianças, marcando e ao mesmo tempo orientando o desejo de um outro “reformado e reconhecível” (Bhabha apud Mclaren, 1993).

As mães das crianças, as prostitutas do Distrito da Luz Vermelha, falam pouco durante o filme. Ao não situar as famílias das crianças no interior de uma análise que nos ajudasse a melhor contextualizar a situação em que elas se encontram – tanto do ponto de vista cultural, quanto legal, somos pouco informados do que representa a prostituição na Índia contemporânea–, o documentário acaba por reforçar o olhar ocidental-colonizador, através da maneira como a fotógrafa lança o seu olhar indignado àquelas situações.

De fato, as mulheres adultas quase não falam. Não sabemos o que elas pensam acerca de sua própria condição, nem tampouco acerca da presença daquela fotógrafa norte-americana, como a compreendem e como a vêem – já que ela está trabalhando com seus filhos e filhas. Estas mulheres aparecem ora como repressoras/violentas, ora como displicentes, desinteressadas (ou apenas interessadas na força de trabalho das crianças). E é esta maneira de representá-las que reforça a nobreza de sua missão: retirar as crianças daquele convívio com a miséria, com a violência e com a prostituição (destino inevitável para algumas).

O esforço da fotógrafa para retirar as crianças de lá, levando-as para uma instituição na qual ficariam apartadas de seus familiares, é praticamente posto no filme como uma condição para a continuação de seu trabalho com elas. E isto me incomoda muito.

Impressionantemente, porém, e isto é o que há de mais interessante no filme, é que apesar dos esforços da fotógrafa, o filme não consegue aprisionar as crianças em seu olhar colonial. Algumas se rebelam e não aceitam os termos das condições (no caso, a remoção para a instituição, na qual ficariam por um longo período afastadas de seus familiares). Algumas impõem resistências, se rebelam, deixam de fotografar.

Mas se é interessante que o documentário não deixe de registrar estas tensões, ele peca por não oferecer uma análise do que significariam estes atos de resistência.

Apesar da nobreza das intenções, mas sobretudo das conquistas estéticas e pedagógicas da fotógrafa – sim, o trabalho de fotografia é belíssimo, além é claro do encantamento em permitir às crianças o direito aos seus próprios olhares, por intermédio dos registros que elas próprias fazem de seu entorno – penso que o documentário não consegue se libertar deste olhar colonial sobre as vidas daquelas crianças.

Segundo Rachel Silvey, o filme reforça esta atitude colonial também ao representar Zana, a fotógrafa, como alguém que sofre por aquelas crianças, que se sacrifica por elas, alguém de bom coração que as quer salvar. Para Silvey,

A ironia é que os objetivos e métodos de Zana são claramente atingidos às custas da estereotipização daquelas crianças (bem como de suas mães). … Dado que estes objetivos são aspectos centrais, o filme poderia ter desenvolvido uma instância critica mais auto-reflexiva acerca do discurso colonizador e da reificação do privilégio de raça/nação que o acompanha ao longo de tal narrativa (Silvey, 2005, p.363).

Ainda segundo Silvey,

Nunca escutamos o que aquelas mães pensam acerca da prostituição, assim como não sabemos muito acerca das qualidades diversas de outros trabalhos mal-remunerados ou de outros laços comunitários, algo que nos ajudaria a situar a história num contexto mais amplo. Pesquisas recentes (Kempadoo and Doezema 1998 ) têm apontado para o fato de que muitas mulheres deixam e retornam à prostituição a depender de fatores diversos que incluem a disponibilidade de outros serviços, salários relativamente melhores e a idade em que se encontram. Esta pesquisa contesta o ponto de vista (normalmente imposto de fora) de que a prostituição é necessariamente pior que outras formas de sub-empregos mal-remunerados e injustos. Além do que, enquanto Zana se encontra ocupada em voluntariamente salvar os destinos das crianças de um destino de prostituição, levando-as para uma instituição escolar, percebemos que parte das crianças e suas mães desejam viver juntas. É crucial questionar como o filme obscurece (e assim inadvertidamente contribui para ampliar) as desigualdades estruturais e globais mais amplas que silenciam e desabilitam as vozes das crianças e mulheres na Índia (Silvey, 2005, p.363).

Aguardo comentários.

Eduardo Luedy

Referências:

McLaren, Peter. (1993). Pós-modernismo, pós-colonialismo e pedagogia. In Silva, Tomaz Tadeu (org.) Teoria educacional crítica em tempos pós-modernos. Porto Alegre: Artes Médicas. Pp. 9-39.

Silvey, Rachel. (2005). “Review of the Film Born into Brothels.” Children, Youth and Environments 15(1): 362-363. Acessado em 2007 de http://www.colorado.edu/journals/cye/.

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Por que discutir homossexualidade?

Posted in Uncategorized on 2 de dezembro de 2007 by Eduardo Luedy

Nesta última sexta-feira de novembro, 30/11/2007, estivemos no Grupo Gay da Bahia, como parte de uma das atividades programadas (uma “viagem de campo”) para a disciplina Educação e Diversidade Cultural. No que se segue pretendo situar as considerações teóricas envolvidas nos debates acerca da diversidade sexual, basicamente tentando justificar a relevância desta temática para a disciplina. De maneira resumida: a questão que buscarei responder é, por que tratar de questões que envolvem a homossexualidade? Tentarei demonstrar que apenas tentar repudiar preconceitos e/ou  erigir um outro olhar, talvez mais benevolente ou tolerante à homossexualidade, constituem aspectos apenas secundários nesta minha argumentação.

O pessoal é também político.

O que pretendo ressaltar é que as questões que envolvem a diversidade sexual – dentre elas, fundamentalmente, o questionamento radical das posições fixas de sujeito e, consequentemente, a própria noção de “normalidade” – não deveriam ser tratadas apenas como questões íntimas, pessoais, de “escolha individual”, como se fossem questões “menores” em relação às questões estruturais “mais fundamentais”, tais como as que se referem à organização e à divisão social do trabalho – o que, obviamente, numa perspectiva crítica, nos remeteria à problematização das desigualdades sociais e das relações de poder e dominação entre as classes sociais.

Portanto, mais do que uma questão de democracia ou de defesa das liberdades individuais, a diversidade sexual tem nos confrontado com uma outra ordem de problematizações. Problematizações implicadas profundamente em questões sociais, culturais e políticas e que dizem respeito muito intensamente à constituição de nossas identidades bem como à micro-política de governo de nossas subjetividades.

Tentando exemplificar: a homossexualidade, para muitos de nós, tornava-se um “problema” a partir do momento em que, ainda crianças, percebíamos que certas atitudes poderiam (ou deveriam) merecer uma repressão social e uma condenação moral extremamente séria, intensa, por vezes até violenta. Obviamente que o peso de tal sanção moral correspondia à noção de que ser “viado”, ou comportar-se como tal, era um pecado e um desvio gravíssimo. Aliás, a palavra viado carrega uma carga imensa de pejoratividade.

O que podemos tentar, agora, nos perguntar é por que alguns indivíduos passam a vivenciar relações homoeróticas, num contexto social, cultural e político quase sempre adverso, contrário, hostil, até mesmo violento, em seu repúdio à homossexualidade. Tal comportamento não pode deixar de ser compreendido como algo que se dá apenas no plano individual, mas sobretudo na dimensão de uma política que tem de ser compreendida no contexto da sociedade mais ampla. Enfim, o que levaria alguém a contrariar a ordem vigente da “normalidade”? Mas também e para além disso: o que vem a ser a “normalidade”? Como ela se estabelece? Que implicações há para os que não se encaixam?

Situadas as considerações teóricas, na perspectiva da disciplina, voltemos à nossa visita ao GGB. Gostaria, pois, que vocês alunas (e Diego, único rapaz da turma) se manifestassem, escrevendo aqui. Gostaria de ler as impressões de vocês acerca da relevância da visita e da conversa com Otávio, um dos corrdenadores do Grupo Gay da Bahia, que nos recebeu de maneira tão atenciosa. A conversa com Otávio exemplifica bem as inextrincáveis articulações entre o pessoal e o político. Podemos pensar, por exemplo, em como poderíamos articular nossas impressões sobre o filme Transamérica, com a leitura do texto indicado (de Mott) e com a visita ao GGB. Sintam-se à vontade para escrever.

No próximo post, deverei colocar também as minhas impressões.

 

Eduardo Luedy

P.S.: há diversos texto de Luiz Mott, o presidente do GGB, tanto no próprio site do grupo quanto em sua página pessoal. Recomendo um fortemente: O que todo cristão deve saber sobre homossexualidade”.