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Crítica e preconceito: quando o gosto popular deve ser repreendido

Posted in Uncategorized on 16 de março de 2008 by Eduardo Luedy

[Bem, o texto deste novo post, após um longo período ausente, não é tão novo assim. Na verdade, ele data de abril de 2005. Lembro que o escrevi motivado por um amigo que me pedia que colocasse no papel parte de minhas elaborações teóricas sobre música popular. Principalmente por conta das polêmicas em que me envolvia em alguns grupos de discussão pela internet com meus pares - falo de músicos e/ou pessoas envolvidas com música popular. O que se segue, pois, talvez se encontre já um pouco datado, mas ainda traduz o que penso em grande parte. Bem, por falta de novidade e inspiração, segue o que escrevi.]

Bem, cá estou atendendo a um convite do Luciano Matos – que sei que partiu muito em função de certas polêmicas que encampei quando participávamos juntos de um grupo de discussão na internet. Achei, então, que seria natural atender ao que supunha ser uma expectativa dele em relação aos meus assuntos favoritos – discursos e textos (que circulam e produzem significados) sobre música popular, mídias de massa, diversidade e relativismo cultural.

Mas eu precisava de um novo mote para começar a escrever e assim foi quando assisti ao último programa Roda Viva da TV Cultura [exibido em 04/04 de 2005], cujo convidado, Tom Zé, estava lá para ser entrevistado sobre o seu novo cd – Estudando o Pagode.

O teor da conversa, principalmente quando passaram todos a lamentar a má qualidade de certos gêneros populares, notadamente o pagode paulistano ou baiano, me fez recordar de um texto que andou circulando na internet há alguns meses, atribuído a Luis Fernando Veríssimo. Ambos, texto e programa, ressoavam algumas das minhas questões favoritas: (1) com base em que parâmetros – éticos e/ou estético-musicais – podemos afirmar que uma música ou um gênero é “ruim”? e (2) quem se encontra habilitado para afirmar certas crenças e valores em arte e em música?

Mas vamos por partes. Primeiro eu havia ficado aborrecido com o consenso “esclarecido”, no programa da TV Cultura, entre músicos de prestígio (o próprio Tom Zé e o maestro Júlio Medaglia, que também estava lá para entrevistá-lo) e jornalistas de veículos “importantes”, acerca do que é bom e do que é ruim em música popular. Sem relativismos, com a certeza “mais certa” do que se tem como epistemologicamente “mais correto” em samba, Tom Zé e entrevistadores reafirmavam o que todos já sabemos ou deveríamos saber: o pagode “comercial” é lixo cultural, uma desvirtuação do “verdadeiro” samba.

Uma certeza que se encontrava bem representada naquele texto-brincadeira atribuído a Luis Fernando Veríssimo, com ataques ao pagode paulistano, à música sertaneja e ao funk carioca. O texto fazia graça com a noção de dependência química e seu recado era direto: diga não às “drogas musicais”, elas viciam, emburrecem, alienam. Ali chamava a atenção não apenas o preconceito explícito, em grande medida contra o pagode (principalmente quando descrevia os “sintomas” que acometem as pessoas ligadas a ele), mas a maneira como revelava a escala de prestígio social de certas manifestações musicais – obviamente, aquelas da preferência de seu autor: “meu tratamento está sendo muito duro, a doses cavalares de MPB, Bossa-Nova, Rock Progressivo e Blues. Mas o médico falou que eu talvez tenha de recorrer ao Jazz, e até mesmo a Mozart, Beethoven e Bach”.

Além disso, incomodava perceber que o efeito do texto-piada residia em fazer joça com o gosto “popularesco”, “kitsch”, “brega” de muita gente. E que o riso que provocava em nós dependia de um acordo, um consenso tácito de nossa parte: o de que mpb, bossa nova, jazz, blues, rock “progressivo”(?) bem como a música de tradição erudita européia, são todos música de qualidade, tudo o que o funk carioca, o axé, o pagode não são. Gostaria de acreditar que haveria uma dupla ironia no texto. Mas este não é mesmo o caso.

O pressuposto comum da condenação àquelas manifestações populares, em ambos os casos, no texto e no programa, parte da perspectiva adorniana que aponta para os aspectos “malévolos” da assim chamada indústria cultural – a massificação, a padronização, e o conseqüente “empobrecimento intelectual” de quem escuta aquelas músicas. Tais argumentos, contudo, quando encampados contemporaneamente por admiradores de certos gêneros de música popular (obviamente, não aqueles condenados ao ridículo pelo autor do texto apócrifo) podem e devem ser desconstruídos e criticados.

E isto não apenas porque tais argumentos condenatórios podem ser bastante contraditórios, uma vez que também se aplicariam aos gêneros populares reconhecidos como “de qualidade” (normalmente aqueles da preferência dos críticos, que se encontram autorizados a legitimar suas preferências mais pessoais, ainda que para isso eles não precisem teorizar muito). Mas também porque tais argumentos condenatórios baseiam-se numa maneira de conceber estética e, consequentemente, valor em arte que deveríamos descolonizar ou, no mínimo, atualizar – até por força das evidências empíricas, amplamente disponíveis por aí, acerca do prazer e do envolvimento real que estas músicas proporcionam a milhares de pessoas. Falo aqui das maneiras radicalmente diversas de envolvimento com arte que temos experimentado, de modo amplo e desde que as linhas que traçavam as fronteiras entre arte e entretenimento foram borradas pela chamada indústria cultural. Mas também desde que os avanços nas tecnologias da comunicação e informação ampliaram, em escala global, os meios de produção, circulação e recepção de bens culturais.

Em outros termos, precisamos discutir até que ponto parâmetros tradicionais para se definir o que tem valor estético ainda são válidos para dar conta de explicar as diversas manifestações culturais e artísticas que vivenciamos na atualidade. Ora, massificação, padronização e “empobrecimento” não são aspectos que possam ser tomados como “absolutos” em arte, mas sim relativos às suas formas de produção e aos valores de quem a vive. E isto vale tanto para Tom Zé quanto vale para o Harmonia do Samba.

Me parece claro também que a canção popular – tomemos o rock, como exemplo de música massificada e padronizada – é, regra geral, menos sofisticada melódica e harmonicamente do que, digamos, o Lieder romântico de Mahler ou Schumann. E, no entanto, sabemos todos que Little Richard cantando “tutti frutti” é um dos grandes exemplos de música do século passado, a despeito de sua “pobreza” musical. Assim como James Brown cantando sua “sex machine”.

Ora, se tomarmos como parâmetros de julgamento apenas seus aspectos “intra-estéticos”, ou seja, seus aspectos musicais formais (e mesmo a “qualidade” poética do texto daquele vigoroso funk de James Brown), fatalmente chegaremos à conclusão de uma relativa “pobreza” estética, artística e musical – a mesma a que se pode atribuir ao pagode, ao funk carioca e ao rock.

Também me parece óbvio que o valor que hoje atribuímos, com justiça, à vibrante música de James Brown depende também de aspectos contextuais relativamente ao momento em que o grandfather do soul se inseria: a afirmação de uma identidade negra positiva num momento de luta contra o preconceito e a segregação racial em fins dos anos de 1960 nos EUA. Em outros termos, o valor que atribuímos à música de James Brown não decorre apenas, como se esta fosse autônoma, de suas estruturas formais internas, mas principalmente dos significados que a elas fomos, de certo modo, atribuindo.

É sempre bom recordar que, assim como o pagode e o funk carioca, o rock em seus primórdios era música de proletários, do mesmo modo considerada pobre e obscena. Mudou o rock ou mudamos nós? E já que o tomamos como exemplo de cultura popular relevante, é preciso dizer que muito do rock contemporâneo continua ainda “pobre”, “tosco”, “agressivo” e, em muitos casos, obsceno. Ainda assim, faria sentido hoje condenar o rock por tudo isso?

E o pagode paulistano comercial? Por que ele é “menos” do que certos gêneros igualmente populares que têm prestígio por entre os chamados “formadores de opinião”? Em que termos musicais e artísticos objetivos, podemos apontar suas falhas estéticas? Ou a sua condenação é moral, e não estritamente musical? Além do que, sob o imenso guarda-chuva que estes rótulos abrigam – pagode, axé, funk carioca etc – é tudo igualmente ruim? E quem são estes “formadores de opinião”, por que estão mais habilitados que outros para afirmarem seus preconceitos por aí? Algum dia darão voz àqueles que apreciam, que vivem e convivem de perto com estas manifestações?

Paro aqui por falta de espaço para desenvolver mais estas questões. Se calhar, volto em outra oportunidade para defender com maiores e melhores argumentos a tese de que a condenação a estas formas populares baseia-se apenas, nada mais nada menos, do que (1) em questões de gosto pessoal – o que não quer dizer que isso seja pouca coisa – e (2) na capacidade que alguns têm de fazer com que seus pontos de vista e seus valores sejam tidos como “mais certos” – isto sim é muita coisa.

P.S. Tenho que fazer justiça a textos e pessoas que me inspiraram e/ou ajudaram a desenvolver estes argumentos: Caetano Veloso e Hermano Vianna (principalmente devido a uma matéria que ele escreveu para o jornal Folha de São Paulo, em 25 de Abril de 1999, chamada exatamente “Condenação silenciosa: desprezo a gêneros como axé e pagode revela o despreparo e a intolerância da mídia”), mas também a Richard Shusterman e a seu instigante e belo livro Vivendo a arte, da Editora 34.

 

Nascidos em bordéis

Posted in Uncategorized on 28 de dezembro de 2007 by Eduardo Luedy

O que me incomoda em “nascidos em bordéis” (Born Into Brothels: Calcutta’s Red Light Kids, de 2004)? Sim, o que me incomoda no belo filme de Zana Briski e Ross Kauffman, ganhador de um Oscar por melhor documentário?

Exibimos este filme na última aula do dia 17/12/07, juntando as turmas de Arte-Educação com a de Novas Tecnologias da Comunicação e Informação (turma do professor Zé Mário). E me ocorreu de comentá-lo aqui no blog da nossa disciplina.

Sim, mas o que me incomoda em “nascidos em bordéis”?

Basicamente, o olhar colonial da fotógrafa norte-americana – que animada por intenções das mais nobres – vê quase sempre o “outro” – aqui representado pelas crianças indianas – como alguém inferiorizado pelas precárias condições de sobrevivência.

Não irei resenhar o filme aqui. O que me interessa é discutir o colonialismo que ressalta do filme de maneira inadvertida: a angústia e o inconformismo da fotógrafa que deseja ajudar as crianças, marcando e ao mesmo tempo orientando o desejo de um outro “reformado e reconhecível” (Bhabha apud Mclaren, 1993).

As mães das crianças, as prostitutas do Distrito da Luz Vermelha, falam pouco durante o filme. Ao não situar as famílias das crianças no interior de uma análise que nos ajudasse a melhor contextualizar a situação em que elas se encontram – tanto do ponto de vista cultural, quanto legal, somos pouco informados do que representa a prostituição na Índia contemporânea–, o documentário acaba por reforçar o olhar ocidental-colonizador, através da maneira como a fotógrafa lança o seu olhar indignado àquelas situações.

De fato, as mulheres adultas quase não falam. Não sabemos o que elas pensam acerca de sua própria condição, nem tampouco acerca da presença daquela fotógrafa norte-americana, como a compreendem e como a vêem – já que ela está trabalhando com seus filhos e filhas. Estas mulheres aparecem ora como repressoras/violentas, ora como displicentes, desinteressadas (ou apenas interessadas na força de trabalho das crianças). E é esta maneira de representá-las que reforça a nobreza de sua missão: retirar as crianças daquele convívio com a miséria, com a violência e com a prostituição (destino inevitável para algumas).

O esforço da fotógrafa para retirar as crianças de lá, levando-as para uma instituição na qual ficariam apartadas de seus familiares, é praticamente posto no filme como uma condição para a continuação de seu trabalho com elas. E isto me incomoda muito.

Impressionantemente, porém, e isto é o que há de mais interessante no filme, é que apesar dos esforços da fotógrafa, o filme não consegue aprisionar as crianças em seu olhar colonial. Algumas se rebelam e não aceitam os termos das condições (no caso, a remoção para a instituição, na qual ficariam por um longo período afastadas de seus familiares). Algumas impõem resistências, se rebelam, deixam de fotografar.

Mas se é interessante que o documentário não deixe de registrar estas tensões, ele peca por não oferecer uma análise do que significariam estes atos de resistência.

Apesar da nobreza das intenções, mas sobretudo das conquistas estéticas e pedagógicas da fotógrafa – sim, o trabalho de fotografia é belíssimo, além é claro do encantamento em permitir às crianças o direito aos seus próprios olhares, por intermédio dos registros que elas próprias fazem de seu entorno – penso que o documentário não consegue se libertar deste olhar colonial sobre as vidas daquelas crianças.

Segundo Rachel Silvey, o filme reforça esta atitude colonial também ao representar Zana, a fotógrafa, como alguém que sofre por aquelas crianças, que se sacrifica por elas, alguém de bom coração que as quer salvar. Para Silvey,

A ironia é que os objetivos e métodos de Zana são claramente atingidos às custas da estereotipização daquelas crianças (bem como de suas mães). … Dado que estes objetivos são aspectos centrais, o filme poderia ter desenvolvido uma instância critica mais auto-reflexiva acerca do discurso colonizador e da reificação do privilégio de raça/nação que o acompanha ao longo de tal narrativa (Silvey, 2005, p.363).

Ainda segundo Silvey,

Nunca escutamos o que aquelas mães pensam acerca da prostituição, assim como não sabemos muito acerca das qualidades diversas de outros trabalhos mal-remunerados ou de outros laços comunitários, algo que nos ajudaria a situar a história num contexto mais amplo. Pesquisas recentes (Kempadoo and Doezema 1998 ) têm apontado para o fato de que muitas mulheres deixam e retornam à prostituição a depender de fatores diversos que incluem a disponibilidade de outros serviços, salários relativamente melhores e a idade em que se encontram. Esta pesquisa contesta o ponto de vista (normalmente imposto de fora) de que a prostituição é necessariamente pior que outras formas de sub-empregos mal-remunerados e injustos. Além do que, enquanto Zana se encontra ocupada em voluntariamente salvar os destinos das crianças de um destino de prostituição, levando-as para uma instituição escolar, percebemos que parte das crianças e suas mães desejam viver juntas. É crucial questionar como o filme obscurece (e assim inadvertidamente contribui para ampliar) as desigualdades estruturais e globais mais amplas que silenciam e desabilitam as vozes das crianças e mulheres na Índia (Silvey, 2005, p.363).

Aguardo comentários.

Eduardo Luedy

Referências:

McLaren, Peter. (1993). Pós-modernismo, pós-colonialismo e pedagogia. In Silva, Tomaz Tadeu (org.) Teoria educacional crítica em tempos pós-modernos. Porto Alegre: Artes Médicas. Pp. 9-39.

Silvey, Rachel. (2005). “Review of the Film Born into Brothels.” Children, Youth and Environments 15(1): 362-363. Acessado em 2007 de http://www.colorado.edu/journals/cye/.

Por que discutir homossexualidade?

Posted in Uncategorized on 2 de dezembro de 2007 by Eduardo Luedy

Nesta última sexta-feira de novembro, 30/11/2007, estivemos no Grupo Gay da Bahia, como parte de uma das atividades programadas (uma “viagem de campo”) para a disciplina Educação e Diversidade Cultural. No que se segue pretendo situar as considerações teóricas envolvidas nos debates acerca da diversidade sexual, basicamente tentando justificar a relevância desta temática para a disciplina. De maneira resumida: a questão que buscarei responder é, por que tratar de questões que envolvem a homossexualidade? Tentarei demonstrar que apenas tentar repudiar preconceitos e/ou  erigir um outro olhar, talvez mais benevolente ou tolerante à homossexualidade, constituem aspectos apenas secundários nesta minha argumentação.

O pessoal é também político.

O que pretendo ressaltar é que as questões que envolvem a diversidade sexual – dentre elas, fundamentalmente, o questionamento radical das posições fixas de sujeito e, consequentemente, a própria noção de “normalidade” – não deveriam ser tratadas apenas como questões íntimas, pessoais, de “escolha individual”, como se fossem questões “menores” em relação às questões estruturais “mais fundamentais”, tais como as que se referem à organização e à divisão social do trabalho – o que, obviamente, numa perspectiva crítica, nos remeteria à problematização das desigualdades sociais e das relações de poder e dominação entre as classes sociais.

Portanto, mais do que uma questão de democracia ou de defesa das liberdades individuais, a diversidade sexual tem nos confrontado com uma outra ordem de problematizações. Problematizações implicadas profundamente em questões sociais, culturais e políticas e que dizem respeito muito intensamente à constituição de nossas identidades bem como à micro-política de governo de nossas subjetividades.

Tentando exemplificar: a homossexualidade, para muitos de nós, tornava-se um “problema” a partir do momento em que, ainda crianças, percebíamos que certas atitudes poderiam (ou deveriam) merecer uma repressão social e uma condenação moral extremamente séria, intensa, por vezes até violenta. Obviamente que o peso de tal sanção moral correspondia à noção de que ser “viado”, ou comportar-se como tal, era um pecado e um desvio gravíssimo. Aliás, a palavra viado carrega uma carga imensa de pejoratividade.

O que podemos tentar, agora, nos perguntar é por que alguns indivíduos passam a vivenciar relações homoeróticas, num contexto social, cultural e político quase sempre adverso, contrário, hostil, até mesmo violento, em seu repúdio à homossexualidade. Tal comportamento não pode deixar de ser compreendido como algo que se dá apenas no plano individual, mas sobretudo na dimensão de uma política que tem de ser compreendida no contexto da sociedade mais ampla. Enfim, o que levaria alguém a contrariar a ordem vigente da “normalidade”? Mas também e para além disso: o que vem a ser a “normalidade”? Como ela se estabelece? Que implicações há para os que não se encaixam?

Situadas as considerações teóricas, na perspectiva da disciplina, voltemos à nossa visita ao GGB. Gostaria, pois, que vocês alunas (e Diego, único rapaz da turma) se manifestassem, escrevendo aqui. Gostaria de ler as impressões de vocês acerca da relevância da visita e da conversa com Otávio, um dos corrdenadores do Grupo Gay da Bahia, que nos recebeu de maneira tão atenciosa. A conversa com Otávio exemplifica bem as inextrincáveis articulações entre o pessoal e o político. Podemos pensar, por exemplo, em como poderíamos articular nossas impressões sobre o filme Transamérica, com a leitura do texto indicado (de Mott) e com a visita ao GGB. Sintam-se à vontade para escrever.

No próximo post, deverei colocar também as minhas impressões.

 

Eduardo Luedy

P.S.: há diversos texto de Luiz Mott, o presidente do GGB, tanto no próprio site do grupo quanto em sua página pessoal. Recomendo um fortemente: O que todo cristão deve saber sobre homossexualidade”.

 

 

As “virgens juradas”: para discutirmos as noções de identidade e gênero

Posted in Uncategorized on 15 de novembro de 2007 by Eduardo Luedy

Foi na ultima edição do Fantástico (rede globo), que vi a matéria – interessantíssima – sobre mulheres na Albânia que, seguindo uma antiga tradição local, assumiram uma identidade masculina (ou o que reconhecemos como “identidade masculina”). Leiam. Servirá de mote para discutirmos posteriormente as noções de identidade, gênero e diferença. Retorno depois com indicações bibliográficas para melhor problematizarmos tais temáticas.

 

Segue a matéria:

 

 

12.11.2007
As virgens juradas

O isolamento foi capaz de esconder um fenômeno ainda hoje desconhecido, que teve origem séculos atrás, no norte da Albânia: mulheres que se comportam como homens. Elas cortam os cabelos, vestem-se como machos e fazem um juramento de virgindade, porque esta é a tradição.

“Eu sou uma virgem jurada”, conta uma delas.

Saímos de Tirana, capital do pequeno país balcânico de 3,5 milhões de habitantes. A caminho do norte, onde vivem as mulheres-homens, a nação islâmica tem mais cor. Nessas montanhas, um dia existiu um código de honra que ainda hoje inspira os moradores do lugar.

Conhecemos Lule em uma igreja. Aos 53 anos, a encanadora está desempregada. Lule diz que no passado as mulheres do campo não tinham nenhum direito. Tornar-se homem era uma tentativa desesperada para sobreviver ou fugir da exploração.

“Para o macho, a vida é mais simples. A mulher tinha que trabalhar em casa e na terra. Os esforços físicos eram feitos pelas mulheres, mais escravas do que seres humanos”, explica Lule.

Elas eram impedidas até de herdar propriedades. Os homens faziam livremente o que queriam, quando desejavam.

A conversão é prevista no Kanun, o código de honra medieval, de ética cristã, que contém as regras criadas pelos camponeses do norte da Albânia. O Kanun reconhece o direito da mulher de proclamar-se homem, de comportar-se socialmente como um homem e de conquistar todos os direitos reservados exclusivamente aos homens. O preço é a renúncia definitiva à maternidade, ao casamento, ao sexo. Uma virgem jurada deve manter uma vida celibatária para sempre.

Foi assim que, aos 15 anos, Lule vestiu as calças compridas e aprendeu a conduzir um trator. Os pais ficaram felizes. Tinham dez filhas e apenas um menino. Lule tornou-se o segundo homem da família.

Quando guiou pela primeira vez, sentiu o mundo nas mãos. Se ela tem namorada? “Não”, responde. “O meu afeto vai para os amigos”.

Vida tem 70 anos, vividos com a liberdade de um homem de sociedade patriarcal e com a castidade de um monge. “Talvez eu seja fêmea, mas não me sinto mulher. Eu me considero mais um braço para trabalhar e ajudar”, diz.

Vida passou os anos caçando e lidando com motores. Não se arrepende. Para fugir de um futuro marido imposto sem ferir a honra da família, fez os votos de homem.

“Quando tomei a decisão, 55 anos atrás, acho que choquei as pessoas, mas as mulheres já usavam calças embaixo das saias na lavoura. Fui também a primeira a andar de bicicleta neste povoado”, lembra.

Lendita, de 46 anos é muçulmana. Não vai à mesquita e nunca leu o Alcorão. Vive modestamente com a pensão da mãe. Foi por ela que muito cedo mudou de identidade.

“Eu tinha 5 anos. Aconteceu uma tragédia na minha família. O meu pai morreu e então assumi o lugar dele para cuidar da minha mãe, porque ela não tinha filho homem”, explica.

Lendita passou sete anos na prisão por ter falado mal do regime stalinista. Hoje escreve suas histórias do cárcere. Gosta do que era proibido às mulheres, como o raki, a cachaça albanesa.

Sem luz elétrica, Vida divide com amigos raki e tabaco. Na Albânia, elas são menos de 30, talvez as últimas virgens juradas.

“Não se pode voltar atrás. No passado, o juramento era feito diante das 12 pessoas mais velhas do povoado. Significava um papel assumido na sociedade, que não podia ser abandonado sem punição. O desprezo seria tão grande que era pior do que morrer”, observa o sociólogo Leke Sokóli.

“Jurei para mim mesma. E é para toda a vida”, garante Lule.

Encontre essa reportagem em:
http://fantastico.globo.com/Jornalismo/Fantastico/0,,AA1661731-4005,00.html

Finalmente um texto interessante que defende Tropa de Elite

Posted in Uncategorized on 15 de novembro de 2007 by Eduardo Luedy

Vejam o referido texto em:

http://blogdamartabellini.blogspot.com/2007/10/tropa-de-elite-o-filme.html

Pelo que entendi, o texto não é propriamente da dona do blog (ela menciona um outro blog – o de mary, a feminista – mas eu não o encontrei).

Cito o seguinte trecho, não diretamente relacionado àquelas questões do último post, mas que têm a ver com a problemática do consumo de drogas:

“É dado que um número significativo de pessoas faz uso de maconha e que essas pessoas clamam pela liberação e tal. Daí que é um pouco anti-democrático ignorar isso. Eu me lembro daquele filme sobre Al Capone e quando ele consegue prender o gângster, liberam o consumo de bebida. E perguntam. O que o senhor vai fazer agora? e ele responde “tomar um drink”. É mais do que legítimo lutar pelo direito de fumar maconha. E, se é um pouco ingênuo passar por cima do processo de produção/distribuição do fumo, é bastante autoritário querer abolir a prática através de uma lei que não se justifica sob nenhum ponto de vista. E daí o maconheiro pode indignar-se. Ele pode perguntar. Por que o governo me OBRIGA a dar dinheiro pra traficante?”

Interessante, não? De fato, por mais que tenha defendido a possibilidade de haver uma possibilidade de consumir maconha sem necessariamente estar envolvido com a criminalidade, percebo agora como esta posição é, no mínimo, ingênua. Claro, se há tráfico, há contravenção.

Mas ainda assim, insisto num ponto: a criminalidade não existe apenas por conta das demandas dos consumidores de drogas. A criminalidade existe porque há uma imensa desigualdade social. Acreditar, portanto, que ao legalizarmos a distribuição e o consumo de drogas – quaisquer que sejam elas – solucionaríamos o problema da bandidagem, é do mesmo modo ingênuo.

Eduardo Luedy

Duas notícias

Posted in Uncategorized on 14 de novembro de 2007 by Eduardo Luedy

Policiais chegam para conter motim ouvindo “Tropa de Elite”

Major do Bope ironiza morte do sequestrador do 174

Ambas notícias da Folha Online.

Será que não devemos mais nos espantar com isso tudo?

Em nosso debate do dia 09/11, as duas posições assumidas em relação ao filme – de um lado, eu e Sandro; de outro José Mário – podem ser assim resumidas:

(1) O filme é fascista porque somos levados, através de determinadas estratégias discursivas postas em ação no filme, a acreditar na eficácia de uma corporação altamente treinada e na necessidade e urgência de medidas extremas para combater a criminalidade, como se, por estarmos vivendo numa “guerra”, a brutalidade do Bope fosse justificável;

(2) O filme não é fascista. O filme espelha o fascismo que existe em nós. [Confesso que não consigo desenvolver muito este argumento. Vou convocar Zé Mário e Ivan para escreverem a respeito]. Se entendi o que aqui é afirmado, o filme mostra a truculência policial, não se posicionando a favor dela. Ao contrário, o filme nos exortaria a nos posicionarmos quanto a isso. Se muitos tomam o Cap. Nascimento como modelo, é porque nossa sociedade é violenta.

Ficam as questões: um filme pode ser “bom” e promover tais efeitos? Podemos gostar de um filme fascista (supondo que a minha tese e a de Sandro estejam corretas)? As leituras de um filme podem subverter seus intentos originais? Ou, um filme não tem que se posicionar e, portanto, a responsabilidade por sua leitura é sempre nossa?

Vou convidar os professores Zé Mário, Sandro e Ivan (que não pôde estar presente) para se manifestarem.

Eduardo Luedy

Transcrição de um trecho da entrevista com Mano Brown no Programa Roda Viva da Tv Cultura realizada em 24/09/07

Posted in Uncategorized on 13 de novembro de 2007 by Eduardo Luedy

À título de ilustração acerca de como diferentes perspectivas sobre uma mesma problemática podem nos ser instrutivas ou gerar mais questões. O que se segue é um trecho de uma entrevista concedida por Mano Brown aos jornalistas e convidados do Programa Roda Viva. Segue o trecho:

Paulo Lins: a questão da criminalidade dos bandidos que estão ali de frente, armados. A gente vê… eu vou fazer 50 anos e 30 de favela… E vi que mudou bastante, né? E, sobretudo, pela questão das armas. Antigamente o pessoal resolvia com 38, 32. 38 era uma arma pesada. Como você vê assim, nesse tempo que você tem, que você começou a analisar a vida, a malandragem mudou muito? O traficante mudou muito? O ladrão mudou muito? Como é que está hoje?

 

Brown: mano, vou te falar… falar de traficante é foda… porque é como se a gente tivesse falando até dos nossos, entendeu? Os nossos amigos, da nossa família, do nosso parceiro, dos caras que está lado a lado. Muitas vezes é o traficante que nós tá falando.

O que é que é uma favela? Como é que é uma organização de uma favela? A gente sabe que a favela precisa da organização. Como é a organização da favela hoje? Quem é que sabe dos problemas da favela? O governo sabe? Não sabe. O assistente social sabe 70, 50 por cento. O cara da ONG sabe 80.

[Alguém pergunta]: E quem é que sabe?

Brown: quem está lá dentro, quem mora lá dentro, conhece todo mundo, conhece quem nasceu, que sabe dos problemas. Sabe quem está preso. Sabe quem está precisando de uma ajuda o filho de quem está precisando.

[Alguém pergunta]: o traficante entra nessa fatia aí?

Brown: Eu não falo só o traficante, mas vamos dizer assim a favela tem a sua organização. Certo? A gente fala o traficante, vamos falar comerciante, vamos trocar esse termo, o traficante e usar comerciante.

[...]

Brown: Entre aspas, o que vocês chamam de traficante, eu chamo de comerciante, o cara que comercializa cocaína, vamos dizer assim já abertamente, ou a maconha, ou qualquer tipo de droga é um comerciante como qualquer outro.

Paulo Markun: Que leva as pessoas para a cadeia ou para o cemitério.

Brown: Agora, o dono da 51 não tira cadeia . A Ambev não tira cadeia. Se você tomar quatro latas de cerveja você vira o super homem na Marginal. Ele não vai tirar uma cadeia. Filho dele não vai ficar marginalizado como filho do presidiário. O que faz mais mal, uma dose de 51 ou o cigarro de maconha? Não estou perguntando se você usa? O que faz mais mal? Teria que ter um médico aqui. Para se falar de droga tem que ter um médico.

[Algum entrevistador do programa]: Não precisa usar para saber, dá para responder, é 51, disparado.

Brown: Certo. Esses caras não vão presos, porque eles não são pretos, não são, certo?, não são morador de favela, não são morador de periferia, eles não vão preso. Agora um comerciante de maconha ele vai preso.

José Nêumane Pinto: Você é a favor de legalizar?

Brown: Se é para negar todas as drogas, nega todas. Entendeu? Para acabar a hipocrisia. Eu não sou a favor de nada, sou a favor que todo mundo vivesse bem e não precisasse de droga nenhuma para entender nada. Que você conseguisse entender o mundo que você vive sem usar nada. Eu sou a favor disso. Mas quando você passa a não entender o mundo que você vive, você recorre a alguma coisa. Quem sou eu para dizer que ele é isso, ele é aquilo, ele é B, C, traficante, usuário, eu não sou ninguém, meu. São situações. Você vive numa situação hoje que você está bem. Você é jornalista, você opina, você fala. Forma opinião. Amanhã você não sabe, mano. A vida é assim. Então a gente aprendeu isso. A vida é assim. Você está legal, amanhã você não sabe, você pode estar no beco dos tristes lá. Tá ligado? Você pode estar lá! Então, os tristes estão lá no beco, vamos ver o que é que eles estão pensando em vez de recriminar, falar que eles são o lixo ou falar que… né? Vamos lá ouvir por que é que eles não se adaptam a nada, eles não gostam de nada? Por que é que eles preferem esse caminho e não o outro que vocês insistem que eles têm que ir?

 

 

 

Tropa de Elite e consumo de drogas

Posted in Uncategorized on 13 de novembro de 2007 by Eduardo Luedy

Na última aula continuamos um pouco os debates sobre o filme Tropa de Elite. Um dos tópicos que levantamos a partir do filme, e que busquei polemizar, foi o da responsabilidade social dos usuários de drogas, ou seja, de seu inevitável comprometimento com a criminalidade associada ao tráfico.

Sem dúvida, muitos usuários não se preocupam em saber a origem das drogas que consomem. No entanto – e esta é uma das broncas que tenho com o filme – acho que responsabilizar apenas o consumidor de drogas, como se, em última análise, fosse o consumo que primordialmente financiasse a criminalidade, o aliciamento de menores e toda a sorte de atividades ilícitas e danosas à sociedade, é, insisto, uma maneira muito empobrecedora de tratar tanto das questões que envolvem o consumo de drogas quanto das maneiras de se combater a criminalidade.

Ou seja, se vamos discutir saúde e segurança pública, na perspectiva de não apenas querer resolver as coisas pela repressão policial, teremos que fazer jus à complexidade de tal problemática.

No meu último encontro com a turma de Arte-Educação, afirmei que dentre as drogas conhecidas e utilizadas em nossa sociedade – dentre elas as bebidas alcoólicas, vendidas quase livremente e sob forte apelo publicitário – a maconha apresentava, inclusive, vantagens, seja do ponto de vista da saúde pública, quanto da própria saúde individual.

Sem ser especialista nestes assuntos, partindo apenas do que vejo por aí, em contato íntimo com muitos amigos que fumam habitualmente (mas eu mesmo sendo um fumante eventual), arrisco afirmar: deveríamos nos preocupar mais com o consumo de álcool, seja por conta dos problemas sociais, seja por conta dos problemas que envolvem diretamente a saúde pública.

Por exemplo, segundo informações divulgadas na revista eletrônica Pesquisa-Fapesp (no site http://www.revistapesquisa.fapesp.br/), 90% das internações ligadas ao uso de drogas no país, e que afeta aproximadamente um em cada dez brasileiros (proporção cinco vezes superior à média mundial) é decorrente do consumo de álcool.

No site do ministério da saúde, encontraremos: consumo prejudicial de álcool afeta 12,5% da população brasileira entre 12 e 65 anos de idade, e é grave problema de saúde pública.

No entanto, segundo o mesmo site, a indústria da bebida alcoólica, poderosíssima economicamente, divulga na mídia de massa, em comerciais de rádio e tv, sem qualquer tipo de cuidado com horário ou faixa etária da programação, a idéia de que beber é algo maravilhoso. Considerando o teor da maioria das campanhas publicitárias, beber significa não só viver em eterna alegria, mas também fazer muito sucesso com as garotas. Segundo o site:

“No ano de 2006, o investimento em mídia da indústria de bebidas alcoólicas foi de R$ 907 milhões. Apenas a AMBEV, maior anunciante do segmento, investiu quase metade desse montante (R$ 451,9 milhões). Esses números refletem não apenas uma estratégia agressiva de comunicação, mas também uma necessidade de aumentar o volume de vendas”.

Mas, ainda assim – face a tudo o que foi exposto sobre os danos provocados pelo consumo excessivo (porém admitido, aceito socialmente e muitas vezes estimulado) do álcool – não acho que a solução seria proibir ou criminalizar, ou sancionar moralmente o consumo das bebidas alcoólicas. Isso seria uma contradição de minha parte.

Melhor seria que regulássemos de maneira mais efetiva e que informássemos às pessoas dos danos que o consumo excessivo de álcool pode causar – o que, de certo modo já é feito. Melhor seria, ao invés de demonizar o álcool e os indivíduos que têm problemas com álcool, que buscássemos compreender as razões que levam as pessoas a consumir excessivamente e a desenvolver problemas relacionados à dependência. O mesmo, para mim, deveria valer para a maconha e para quase todas as drogas ilícitas.

Agora, não seria interessante que a AMBEV fosse responsabilizada socialmente pela ilusão que ela ajuda a divulgar por aí? Não seria interessante que, assim como ocorreu com a indústria de cigarro (e que efetivamente fez com que o consumo de tabaco diminuísse significativamente por entre adolescentes) houvesse restrições às propagandas que estimulam o consumo de álcool?

[Acerca de como a mídia dominante tem lidado com essa questão, recomendo a leitura do seguinte artigo “Desce macio demais”, que se encontra em http://blog.controversia.com.br/2007/06/20/]

[Sugiro também a leitura do trecho da entrevista de Mano Brown ao Programa Roda Viva da TV Cultura de São Paulo e que se encontra em outro post, aqui mesmo neste Blog]

Pois bem, mas antes de retomar o debate sobre a maneira como o filme Tropa de Elite responsabiliza os usuários de drogas ilícitas, como se eles financiassem e ajudassem a sustentar a criminalidade (o que nos leva a acreditar que a solução para a criminalidade depende apenas do consumidor e de seus “desejos proibidos”), gostaria de comentar algo que surgiu em minha última aula com a turma de Arte-Educação, no dia 12/11. Particularmente, gostaria de aprofundar um pouco mais as reflexões acerca do que afirmei sobre “gostar de maconha”.

Primeiramente, não quero ser tomado como um exemplo de virtude. Somos todos adultos e, por mais que saiba que aquilo que um professor diz e faz tem um peso, uma vez que é a palavra de alguém que se encontra investido de uma certa autoridade, queria chamar a atenção para o fato de que nós professores não somos tão diferentes assim de nossos alunos, no que tange aos seus desejos, aos seus anseios e, também, às suas contradições.

Em segundo lugar, do mesmo modo que não me agrada em nada fazer algo que não se pode fazer à luz do dia (ou seja, por conta da criminalização da maconha), também não me agrada estar aqui discutindo sobre consumo de drogas sem admitir de maneira franca o que penso a respeito delas.

Em outros termos, afirmar o que afirmei em relação à maconha é não só combater a hipocrisia, mas é também parte da vontade de afirmar uma atitude “desconstrucionista” em relação a certas crenças e a certos preconceitos. Ou seja, faz parte de uma atitude que busca, por princípio, discutir como nos tornamos o que somos –  como pensamos o que pensamos e como somos levados a agir de certas maneiras e não de outras. Atitude que requer que discutamos em profundidade como somos forjados no interior de um mundo de cultura – com seus valores, princípios, crenças etc – que pode limitar ou restringir nossa compreensão e nossas atitudes perante o que consideramos ser, por exemplo, um problema social, como é o caso do consumo de drogas.

Pois bem, quero defender aqui que a condenação à maconha decorre em grande medida de uma produção simbólica (e, portanto, cultural) acerca desta droga. Algo que se encontra presente, por exemplo, na maneira profundamente pejorativa com que adjetivamos seus usuários como “maconheiros”. Chamar alguém de maconheiro é um quase xingamento, é jogar sobre alguém o peso de uma (ir)responsabilidade social profunda, é evocar a condição de marginalidade endêmica a ser execrada publicamente.

É preciso historicizar isso daí: a maconha durante muito tempo sofreu (e ainda sofre) o estigma de ser uma droga de marginais. A carga profundamente pejorativa na adjetivação “maconheiro” advém portanto não tanto do fato de que faça mal à saúde individual ou coletiva, mas sim por ter sido associada primeiramente a pessoas pobres e negras, moradoras de favelas e, portanto, assim se acreditava, propensas à marginalidade.

Para não me alongar demais aqui, sugiro a leitura do seguintes texto, “Makanha, ganja, dagga, etc: o fim da polêmica”, de Luis Cláudio Daltro [e que se encontra em http://oglobo.globo.com/blogs/antonio/post.asp?cod_Post=69327&a=2]. O artigo nos põe à par de como outras culturas, outras sociedades, agem e pensam em relação às drogas (notadamente em relação à maconha).

E do instigante artigo de Joe Rocha Rangel, publicado na revista eletrônica Duplipenar [em http://www.duplipensar.net/artigos/2006-Q2/erva-do-mal-ou-santo-remedio-um-exame-sobrio-sobre-o-uso-da-maconha.html] que traz à luz a questão da legalização da maconha, de seu uso medicinal nos EUA e de nossos preconceitos em relação a ela.

Para finalizar, muito provisoriamente, diga-se de passagem – até porque há muito mais o que discutir sobre e a partir do filme Tropa de Elite –, gostaria de ressaltar que a atitude de desconstruir noções muito arraigadas não é tarefa fácil, mas pode ser muito instrutiva.

 

 

Aguardo os comentários.

Eduardo Luedy

Sobre Tropa de Elite (ainda!)

Posted in Uncategorized on 11 de novembro de 2007 by Eduardo Luedy

Apesar de haver pensado inicialmente em debater o filme Tropa de Elite com minha turma de Arte-Educação, em verdade, teria debatido o filme com qualquer disciplina que estivesse ministrando – Educação e Diversidade, inclusive!

O fato é que cada vez mais tenho tendido a não demarcar fronteiras muito precisas entre as disciplinas que ministro – e principalmente quando ministro as disciplinas Arte-Educação e Educação e Diversidade Cultural. De certo modo, ao discutir arte e educação estou sempre pensando em cultura; e, ao me ocupar das práticas culturais, por tomá-las, seguindo Geertz e Hall, como práticas de significação, termino também me ocupando de suas formas simbólicas – muitas delas acessíveis através de formas de expressão “artísticas”.

O filme Tropa de Elite, enquanto texto cultural, é um excelente exemplo de como arte e cultura tanto refletem anseios e preocupações sociais cotidianas, como também contribui para moldar opiniões, conformar pontos de vista e, em última análise, atuar profundamente em nossas subjetividades.

Nos posts a seguir, estarei discutindo tantas questões quanto nos forem possíveis tabular. Gostaria, portanto, de contar com a colaboração de vocês por via dos comentários e de sugestões.

Um grande abraço,

Eduardo Luedy

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