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A resposta da Profa. Sonia Penin

Posted in Uncategorized on 6 de abril de 2008 by Eduardo Luedy

No post anterior, “Educando à direita“, mencionei a resposta da Profa. Sonia Penin, diretora da Faculdade de Educação da USP, às declarações da secretária de educação do Estado de SP, Maria Helena Castro. Pus o texto que me enviaram por e-mail, não sei ao certo onde ele foi publicado, mas os argumentos da Sonia Penin são bastante interessantes – principalmente por discutir as maneiras simplificadoras e simplórias das leituras dos dados relativos a avaliações institucionais e educacionais feitas por supostas autoridades educacionais. Bem, o melhor é ler o texto-resposta.

Segue o texto:

Em defesa das Faculdades de Educação e da Pedagogia

Os precários resultados, sistematicamente divulgados acerca do desempenho dos alunos da escola básica brasileira, evidenciam uma situação de tal gravidade que exige de todos os agentes e instâncias responsáveis pela educação um exame rigoroso de suas causas. Para esse exame, a análise radical e a crítica consistente são instrumentos indispensáveis para a busca de um diagnóstico preciso.

É, pois, com constrangimento e inquietação, que recebemos as declarações da Secretária de Estado da Educação de São Paulo, profa. Maria Helena Guimarães de Castro (Folha de S. Paulo, 25/02/08), propondo, de forma simplista, o fechamento de todos os cursos de formação de professores/ pedagogia, especificando os das Faculdades de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP) e da Universidade de Campinas (Unicamp). Afirmar medida tão radical com tão poucos elementos produz um deserviço só comparável com uma política de terra arrasada, incompreensível e inadmissível no atual momento brasileiro.

Imputar aos cursos de formação inicial as dificuldades que os professores hoje enfrentam no ensino dos alunos das escolas de educação básica é de uma ligeireza inaceitável por quem deveria, minimamente, considerar o cenário socioeconômico e cultural brasileiro/paulista , as mudanças ocorridas na contemporaneidade, assim como as especificidades presentes em organizações complexas como são os nossos sistemas de ensino.

É preciso lembrar que os governos (federal, estaduais e municipais), apesar de respeitáveis esforços localizados, não têm possibilitado a transformação radical que a realidade demanda, o que é claramente identificado pela baixa proporção da educação no Produto Interno Bruto (PIB).

Em segundo lugar, e a despeito do não-crescimento da educação no PIB, ocorreu, nesses últimos anos, um movimento positivo de aumento do acesso e tempo de permanência de grande parte das crianças na escola. Esse fenômeno trouxe como conseqüência uma mudança benfazeja no perfil médio do aluno da escola pública, incorporando praticamente todo o leque de diferenciação da população brasileira. Tal diferenciação, todavia, apresentou-se para uma grande parte dos professores como uma dificuldade a mais no ensino.

Terceiro, e paralelamente à mudança no perfil médio do alunado, as mudanças da contemporaneidade trouxeram novas demandas para o ensino, uma vez que não é trivial articular em cada escola as transformações globais com aquelas que se traduzem em âmbitos singulares. Essas mudanças, de ordem socioeconômica e cultural, são suficientes para indicar que, na profissionalizaçã o docente, como em qualquer outra, o diploma não é suficiente para assegurar a adequada inserção de um profissional no trabalho. Mais propriamente, fala-se em trajetória de formação, articulando- se a formação inicial e a continuada. O próprio modelo de formação continuada precisa ser repensado, pois o geralmente adotado, sob responsabilidade inclusive da Secretaria da Educação, não tem tomado a escola real e os problemas concretos do ensino como referências centrais.

Não considerando essas questões, assusta a forma como uma secretária de Estado desagrega espaços, instituições e pessoas e se coloca numa posição bélica contra todos os cursos de pedagogia. O que é mais constrangedor, a secretária se refere especificamente a duas Universidades brasileiras reconhecidas entre as melhores em nível internacional.

No caso da Faculdade de Educação da USP, a contribuição que tem prestado à educação paulista pode ser comprovada pelo volume e pela qualidade da pesquisa que realiza, pelas produções qualificadas (783 no último triênio), em grande parte publicadas em periódicos internacionais, e pela qualidade dos profissionais que forma, reconhecidamente competentes, críticos, muitos deles assumindo posições de liderança em diferentes instituições.

Supor que um curso de formação profissional em nível superior, como sugere a secretária, deva tratar das reais demandas das escolas sem um embasamento teoricamente rigoroso é temerário e fatal para o enfrentamento competente da problemática educacional brasileira atual e futura. O trabalho numa realidade complexa está condenado ao fracasso ou à mediocridade se não se apoiar numa análise teórica e historicamente consistente. Teoria e prática, articuladas, definem uma boa profissionalizaçã o, seja na formação inicial, seja na continuada. A prática no curso de pedagogia é principalmente viabilizada pelos estágios, que, na FEUSP, correspondem a 20% do currículo.

Tendo como missão formar pedagogos e professores competentes, críticos e socialmente responsáveis visando a melhoria da escolarização das nossas crianças e jovens, os profissionais desta Faculdade de Educação se propõem à interlocução sistemática e crítica com os diferentes atores que conduzem a educação brasileira.

Sonia Penin é professora titular e diretora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo – USP

Educando à direita

Posted in Uncategorized on 6 de abril de 2008 by Eduardo Luedy

O novo post é sobre a entrevista que Maria Helena Guimarães de Castro, secretária de educação do estado de São Paulo deu à revista Veja [edição de 13 de fevereiro de 2008, n. 2047]. Seus pressupostos conservadores e suas implicações reacionárias caracterizam bem aquilo que podemos chamar de “educação à direita” [a menção ao livro de Michael Apple, Educando à Direita (2003), é intencional].

Devo mencionar que tomei conhecimento da tal entrevista a partir do texto-resposta de autoria da profa. Sonia Penin [diretora da Faculdade de Educação da USP], contra as declarações da secretária, que me enviaram por e-mail. A partir daí, busquei localizar na internet a entrevista da secretária. Minha primeira busca, contudo, conduziu-me ao blog do nosso ex-ministro da educação (e atual deputado tucano) Paulo Renato de Souza.

A leitura do que ele escreve não deixou de ser interessante, uma vez que Paulo Renato exulta com o discurso da secretária – uma entrevista, segundo ele, “de encher os olhos”. Vejam um trecho:

“De forma cáustica, ela [a secretária] mostra que prevalece um tipo de curso de pedagogia teoricista e sem vínculo com o mundo real das escolas públicas. Prioriza-se o discurso ideológico sobre o papel transformador do ensino, mas não se ensina aos futuros professores os aspectos básicos da didática [...]. Por este caminho, as faculdades de Educação podem estar formando bons humanistas, mas não necessariamente professores aptos para sua missão de ensinar aos alunos” [grifos meus].

Não deveria estranhar que o entusiasmo do Paulo Renato, ao exortar a “belíssima entrevista” da Maria Helena Guimarães de Castro, não atentasse para (e nem lamentasse) o fato de que a secretária houvesse diminuído a carga horária das humanidades nas escolas de educação básica de São Paulo [através da Resolução nº 92/07, da Secretaria de Educação do Estado, que veta a obrigatoriedade do ensino da disciplina sociologia aos estudantes de escolas públicas]. Filosofia e sociologia, nesta perspectiva tecnicista, são luxos desnecessários – tanto para a formação de professores quanto para a formação de nossos alunos e alunas da Educação Básica – uma vez que o que importa, no final das contas, parece mesmo ser a preparação para o “mundo do trabalho”.

Não deveríamos nos espantar, tampouco, se o ex-ministro endossasse a defesa que a secretária faz da centralização dos currículos escolares – a serem elaborados por autoridades mais competentes do que os professores e professoras das escolas brasileiras, certamente.

Mas é preciso dar voz à secretária. Vejamos um trecho que colhi de sua entrevista à Veja:

“Num mundo ideal, eu fecharia todas as faculdades de pedagogia do país, até mesmo as mais conceituadas, como a da USP e a da Unicamp, e recomeçaria tudo do zero. Isso porque se consagrou no Brasil um tipo de curso de pedagogia voltado para assuntos exclusivamente teóricos, sem nenhuma conexão com as escolas públicas e suas reais demandas. Esse é um modelo equivocado. No dia-a-dia, os alunos de pedagogia se perdem em longas discussões sobre as grandes questões do universo e os maiores pensadores da humanidade, mas ignoram o básico sobre didática. As faculdades de educação estão muito preocupadas com um discurso ideológico sobre as múltiplas funções transformadoras do ensino. Elas deixam em segundo plano evidências científicas sobre as práticas pedagógicas que de fato funcionam no Brasil e no mundo” [grifos meus].

Para a Maria Helena, que imputa aos professores a responsabilidade pela “precariedade” de nossa situação educacional, a solução para todo este cenário reside na didática – bem entendida, aquela que se concebe a priori e que deve funcionar in abstracto. Aliás, a própria pedagogia deve ser compreendida como uma técnica de ensino aplicável, também in abstracto, independentemente de contexto, “no Brasil e no mundo”. Dimensões políticas e ideológicas de tais práticas não deveriam ser assunto dos cursos de formação de professores. [Não é uma maravilha perceber como um discurso que se pretende eminentemente técnico, neutro e desinteressado revela seus contornos ideológicos?]

Outra coisa que chama a atenção em seu discurso é a menção a “reais demandas” da educação pública. A secretária afirma que estas deveriam ser prioridades para as políticas educacionais. Nesta perspectiva tecnicista, que crê na importância de se diminuir a teoria para aumentar a eficiência, as “reais demandas” só podem e só devem ser compreendidas pela ótica daqueles a quem é dada a autoridade e, consequentemente, o direito de defini-las como “demandas reais”. Em outros termos, a “realidade” das demandas pertence àqueles que detém maior poder material e simbólico em nossa sociedade.

Toda esta minha bronca, contudo, para com o discurso conservador da secretária pode parecer uma bobagem inútil, dada a crença (quase) hegemônica na importância da eficiência técnica, na maximização econômica e no discurso da competência e da competitividade.

Refiro-me, aqui, à defesa de que, ao contrário do que diz a secretária, nossos discursos e ações pedagógicas sejam desenvolvidos no interior de práticas sociais concretas, cujas “reais demandas” sejam situadas e compreendidas de maneira dialógica, atenta às expectativas, pontos de vista e experiências culturais e sociais daqueles a quem buscamos destinar nossos projetos políticos-pedagógicos.

Refiro-me também à necessidade de se resistir à tentativa de reduzir a pedagogia a mero treinamento e, consequentemente, à homogeneização e alienação de nossos alunos e alunas – hoje convencidos de que devem preparar-se apenas para competir e conquistar uma vaga num “mundo de trabalho” extremamente excludente e injusto para a maior parcela de nossa sociedade.

No entanto, o que nos resta, então? O que faremos para além de constatar este movimento à direita – que se assoma a nós, hoje, como algo inevitável – em educação? O que nos resta quando constatamos não só o quão insidioso este discurso reacionário é para tantos de nós, mas também o quão inescapável parece ser o consenso em torno dele?

As respostas podem ser múltiplas (e me agrada que, de fato, elas assim possam ser), mas, quaisquer que sejam, elas me parecem quase sempre fracas para modificar o quadro geral em que nos encontramos.

Encerrar o post assim de modo tão melancólico, apenas talvez me comprazendo por não gostar de fazer parte disso, por poder ter assunto para manifestar minha diferença e minha revolta, acreditem, mais me angustia do que anima. Principalmente porque não sei como propor algo de concreto que possa reverter esse movimento. Conseguiremos algum dia?

Eduardo Luedy

ps. Há uma análise bem interessante do discurso da Maria Helena Castro Guimarães, feita pelo Paulo Ghiraldelli Jr., e que se encontra em seu blog.

ps2. para quem quiser saber um pouco mais sobre a resolução que veta a obrigatoriedade do ensino de sociologia e filosofia nas escolas públicas de São Paulo, leia o blog do Ivan Valente [e assine o manifesto contrário à tal resolução].

ps3. para quem quiser se assombrar com o discurso de direita, ou apenas se comprazer em verificar como os argumentos de certas autoridades em educação merecem ser desautorizados, simplesmente porque são argumentos primários demais para serem verdadeiros [e eles são!], leia o blog do Simon Schwartzman. Mas não deixe de ler, nos comentários, a contra-argumentação muito bem fundamentada de um rapaz chamado Leonardo Barbosa e Silva – algo que nos anima verdadeiramente.

A referência ao trabalho de Apple é:

Apple, Michael. Educando à direita. São Paulo: Cortez/Instituto Paulo Freire, 2003.

“Cuidado com as drogas!!!”

Posted in Uncategorized on 18 de março de 2008 by Eduardo Luedy

Por conta do post anterior, achei por bem publicar também o tal texto-piada apócrifo (supostamente atribuído a Luis Fernando Veríssimo, mas até onde eu sei, sem confirmação de sua autoria), que lamenta a suposta “má qualidade” de certos gêneros populares, notadamente o pagode, a música sertaneja e o funk carioca.

O texto constrói sua brincadeira a partir da noção de dependência química – daí o “diga não às drogas!” – afinal, as “drogas musicais” também viciam, e mais: emburrecem, alienam. Obviamente que a graça do texto depende de haver um consenso tácito acerca do que conta como música “de qualidade” e o de que aqueles gêneros mais popularescos não merecem nenhuma consideração estética – não importa se eles são enormemente populares, se fazem a alegria de milhares de pessoas.

Publicar o texto-piada é, pois, uma forma de demonstrar como opera uma determinada política cultural, chamando atenção para sua geometrização (ou seja, para aquilo que fica de fora do território da “boa música”) e para suas estratégias (a ridicularização e o menosprezo; mas, principalmente, para a maneira como somos interpelados no texto a nos posicionarmos perante o que conta como “bom gosto”, até para que possamos rir dele/com ele).

Pena eu não ter a transcrição do tal programa em que Tom Zé e os entrevistadores do programa Roda Viva da Tv Cultura afirmavam o que busquei comentar e criticar no último post, mais abaixo, aqui mesmo neste blog.

Segue o texto-piada:

Cuidado com as drogas!!!!

Tudo começou quando eu tinha uns 14 anos e um amigo chegou com aquele papo de experimenta, depois quando você quiser é só parar…” e eu fui na dele. Primeiro ele me ofereceu coisa leve, disse que era de “raiz”, da terra, que não fazia mal, e me deu um inofensivo disco do Chitãozinho e Xororó e em seguida um do Leandro e Leonardo. Achei legal, uma coisa bem brasileira; Mas a parada foi ficando mais pesada, o consumo cada vez mais freqüente, comecei a chamar todo mundo de “amigo” e acabei comprando pela primeira vez.

Lembro que cheguei na loja e pedi:- Me dá um cd do Zezé de Camargo e Luciano. Era o princípio de tudo! Logo resolvi experimentar algo diferente e ele me ofereceu um cd de Axé. Ele dizia que era para relaxar; sabe, coisa leve… Banda Eva, Cheiro de Amor, Netinho, etc. Com o tempo, meu amigo foi me oferecendo coisas piores: o Tchan, Companhia do Pagode e muito mais. Após o uso contínuo, eu já não queria saber de coisas leves, eu queria algo mais pesado, mais desafiador, que me fizesse mexer os quadris como eu nunca havia mexido antes. Então, meu amigo me deu o que eu queria, um cd do Harmonia do Samba.

Minha bunda passou a ser o centro da minha vida, razão do meu existir. Pensava só nessa parte do corpo, respirava por ela, vivia por ela! Mas, depois de muito tempo de consumo, a droga perde efeito, e você começa a querer cada vez mais, mais, mais…

Comecei a freqüentar o submundo e correr atrás das paradas. Foi a partir daí que começou a minha decadência. Fui ao show e ao encontro dos grupos Karametade e Só Pra Contrariar, e até comprei a Caras que tinha o Rodriguinho na capa. Quando dei por mim, já estava com o cabelo pintado de loiro, minha mão tinha crescido muito em função do pandeiro. Meus polegares já não se mexiam por eu passar o tempo todo fazendo sinais de positivo Não deu outra: entrei para um grupo de pagode.

Enquanto vários outros viciados cantavam uma música que não dizia nada, eu e mais outros 12 infelizes dançávamos alguns passinhos ensaiados, sorríamos e fazíamos sinais combinados. Lembro-me de um dia quando entrei nas lojas Americanas e pedi a Coletânea “As melhores do Molejo”. Foi terrível!! Eu já não pensava mais!!! Meu senso crítico havia sido dissolvido pelas rimas miseráveis e letras pouco arrojadas.

Meu cérebro estava travado, não pensava em mais nada. Mas a fase negra ainda estava por vir. Cheguei ao fundo do poço, ao limiar da condição humana, quando comecei a escutar popozudas, bondes, tigres, MC Serginho, Lacraias, motinhas e tapinhas.

Comecei a ter delírio e a dizer coisas sem sentido e quando saía à noite para as festas, pedia tapas na cara e fazia gestos obscenos. Fui cercado por outros drogados, usuários das drogas mais estranhas que queriam me mostrar o caminho das pedras… Minha fraqueza era tanta que estive próximo de sucumbir aos radicais e ser dominado pela droga mais poderosa do mercado: Ki-Kokolexo.

Hoje estou internado em uma clínica. Meus verdadeiros amigos fizeram a única coisa que poderiam ter feito por mim. Meu tratamento está sendo muito duro: doses cavalares de MPB, Bossa-Nova, Rock Progressivo e Blues. Mas o médico falou que eu talvez tenha de recorrer ao Jazz, e até mesmo a Mozart, Beethoven e Bach.

Queria aproveitar a oportunidade e aconselhar as pessoas a não se entregarem a esse tipo de droga. Os traficantes só pensam no dinheiro. Eles não se preocupam com a sua saúde, por isso tapam a visão para as coisas boas e te oferecem drogas. Se você não reagir, vai acabar drogado: alienado, inculto, manobrável, consumível, descartável, distante. Em vez de encher a cabeça com porcaria, pratique esportes e, na dúvida, se não puder distinguir o que é droga ou não, faça o seguinte:

 

- Não ligue a TV no domingo;

- Não escute nada que venha de Goiânia ou do interior de São Paulo;

- Não entre em carros com adesivos “Fui…..”;

- Se te oferecerem um cd, procure saber se certificar que o artista não foi ao programa da Hebe e/ou ao Domingo Legal do Gugu;

- Evite mulheres que gritam histericamente quando vê um artista;

- Não compre um cd que tenha mais de 6 pessoas na capa;

- Não vá a shows em que os suspeitos façam passos ensaiados;

- Não compre nenhum cd que tenha vendido mais de um milhão de cópias no Brasil;

- Não escute nada em que o autor não consiga uma concordância verbal mínima.

A vida é bela!!!! Eu sei que você consegue!!! Diga não às drogas!! Por favor, ajudem a passar esta mensagem…

 

Crítica e preconceito: quando o gosto popular deve ser repreendido

Posted in Uncategorized on 16 de março de 2008 by Eduardo Luedy

[Bem, o texto deste novo post, após um longo período ausente, não é tão novo assim. Na verdade, ele data de abril de 2005. Lembro que o escrevi motivado por um amigo que me pedia que colocasse no papel parte de minhas elaborações teóricas sobre música popular. Principalmente por conta das polêmicas em que me envolvia em alguns grupos de discussão pela internet com meus pares - falo de músicos e/ou pessoas envolvidas com música popular. O que se segue, pois, talvez se encontre já um pouco datado, mas ainda traduz o que penso em grande parte. Bem, por falta de novidade e inspiração, segue o que escrevi.]

Bem, cá estou atendendo a um convite do Luciano Matos – que sei que partiu muito em função de certas polêmicas que encampei quando participávamos juntos de um grupo de discussão na internet. Achei, então, que seria natural atender ao que supunha ser uma expectativa dele em relação aos meus assuntos favoritos – discursos e textos (que circulam e produzem significados) sobre música popular, mídias de massa, diversidade e relativismo cultural.

Mas eu precisava de um novo mote para começar a escrever e assim foi quando assisti ao último programa Roda Viva da TV Cultura [exibido em 04/04 de 2005], cujo convidado, Tom Zé, estava lá para ser entrevistado sobre o seu novo cd – Estudando o Pagode.

O teor da conversa, principalmente quando passaram todos a lamentar a má qualidade de certos gêneros populares, notadamente o pagode paulistano ou baiano, me fez recordar de um texto que andou circulando na internet há alguns meses, atribuído a Luis Fernando Veríssimo. Ambos, texto e programa, ressoavam algumas das minhas questões favoritas: (1) com base em que parâmetros – éticos e/ou estético-musicais – podemos afirmar que uma música ou um gênero é “ruim”? e (2) quem se encontra habilitado para afirmar certas crenças e valores em arte e em música?

Mas vamos por partes. Primeiro eu havia ficado aborrecido com o consenso “esclarecido”, no programa da TV Cultura, entre músicos de prestígio (o próprio Tom Zé e o maestro Júlio Medaglia, que também estava lá para entrevistá-lo) e jornalistas de veículos “importantes”, acerca do que é bom e do que é ruim em música popular. Sem relativismos, com a certeza “mais certa” do que se tem como epistemologicamente “mais correto” em samba, Tom Zé e entrevistadores reafirmavam o que todos já sabemos ou deveríamos saber: o pagode “comercial” é lixo cultural, uma desvirtuação do “verdadeiro” samba.

Uma certeza que se encontrava bem representada naquele texto-brincadeira atribuído a Luis Fernando Veríssimo, com ataques ao pagode paulistano, à música sertaneja e ao funk carioca. O texto fazia graça com a noção de dependência química e seu recado era direto: diga não às “drogas musicais”, elas viciam, emburrecem, alienam. Ali chamava a atenção não apenas o preconceito explícito, em grande medida contra o pagode (principalmente quando descrevia os “sintomas” que acometem as pessoas ligadas a ele), mas a maneira como revelava a escala de prestígio social de certas manifestações musicais – obviamente, aquelas da preferência de seu autor: “meu tratamento está sendo muito duro, a doses cavalares de MPB, Bossa-Nova, Rock Progressivo e Blues. Mas o médico falou que eu talvez tenha de recorrer ao Jazz, e até mesmo a Mozart, Beethoven e Bach”.

Além disso, incomodava perceber que o efeito do texto-piada residia em fazer joça com o gosto “popularesco”, “kitsch”, “brega” de muita gente. E que o riso que provocava em nós dependia de um acordo, um consenso tácito de nossa parte: o de que mpb, bossa nova, jazz, blues, rock “progressivo”(?) bem como a música de tradição erudita européia, são todos música de qualidade, tudo o que o funk carioca, o axé, o pagode não são. Gostaria de acreditar que haveria uma dupla ironia no texto. Mas este não é mesmo o caso.

O pressuposto comum da condenação àquelas manifestações populares, em ambos os casos, no texto e no programa, parte da perspectiva adorniana que aponta para os aspectos “malévolos” da assim chamada indústria cultural – a massificação, a padronização, e o conseqüente “empobrecimento intelectual” de quem escuta aquelas músicas. Tais argumentos, contudo, quando encampados contemporaneamente por admiradores de certos gêneros de música popular (obviamente, não aqueles condenados ao ridículo pelo autor do texto apócrifo) podem e devem ser desconstruídos e criticados.

E isto não apenas porque tais argumentos condenatórios podem ser bastante contraditórios, uma vez que também se aplicariam aos gêneros populares reconhecidos como “de qualidade” (normalmente aqueles da preferência dos críticos, que se encontram autorizados a legitimar suas preferências mais pessoais, ainda que para isso eles não precisem teorizar muito). Mas também porque tais argumentos condenatórios baseiam-se numa maneira de conceber estética e, consequentemente, valor em arte que deveríamos descolonizar ou, no mínimo, atualizar – até por força das evidências empíricas, amplamente disponíveis por aí, acerca do prazer e do envolvimento real que estas músicas proporcionam a milhares de pessoas. Falo aqui das maneiras radicalmente diversas de envolvimento com arte que temos experimentado, de modo amplo e desde que as linhas que traçavam as fronteiras entre arte e entretenimento foram borradas pela chamada indústria cultural. Mas também desde que os avanços nas tecnologias da comunicação e informação ampliaram, em escala global, os meios de produção, circulação e recepção de bens culturais.

Em outros termos, precisamos discutir até que ponto parâmetros tradicionais para se definir o que tem valor estético ainda são válidos para dar conta de explicar as diversas manifestações culturais e artísticas que vivenciamos na atualidade. Ora, massificação, padronização e “empobrecimento” não são aspectos que possam ser tomados como “absolutos” em arte, mas sim relativos às suas formas de produção e aos valores de quem a vive. E isto vale tanto para Tom Zé quanto vale para o Harmonia do Samba.

Me parece claro também que a canção popular – tomemos o rock, como exemplo de música massificada e padronizada – é, regra geral, menos sofisticada melódica e harmonicamente do que, digamos, o Lieder romântico de Mahler ou Schumann. E, no entanto, sabemos todos que Little Richard cantando “tutti frutti” é um dos grandes exemplos de música do século passado, a despeito de sua “pobreza” musical. Assim como James Brown cantando sua “sex machine”.

Ora, se tomarmos como parâmetros de julgamento apenas seus aspectos “intra-estéticos”, ou seja, seus aspectos musicais formais (e mesmo a “qualidade” poética do texto daquele vigoroso funk de James Brown), fatalmente chegaremos à conclusão de uma relativa “pobreza” estética, artística e musical – a mesma a que se pode atribuir ao pagode, ao funk carioca e ao rock.

Também me parece óbvio que o valor que hoje atribuímos, com justiça, à vibrante música de James Brown depende também de aspectos contextuais relativamente ao momento em que o grandfather do soul se inseria: a afirmação de uma identidade negra positiva num momento de luta contra o preconceito e a segregação racial em fins dos anos de 1960 nos EUA. Em outros termos, o valor que atribuímos à música de James Brown não decorre apenas, como se esta fosse autônoma, de suas estruturas formais internas, mas principalmente dos significados que a elas fomos, de certo modo, atribuindo.

É sempre bom recordar que, assim como o pagode e o funk carioca, o rock em seus primórdios era música de proletários, do mesmo modo considerada pobre e obscena. Mudou o rock ou mudamos nós? E já que o tomamos como exemplo de cultura popular relevante, é preciso dizer que muito do rock contemporâneo continua ainda “pobre”, “tosco”, “agressivo” e, em muitos casos, obsceno. Ainda assim, faria sentido hoje condenar o rock por tudo isso?

E o pagode paulistano comercial? Por que ele é “menos” do que certos gêneros igualmente populares que têm prestígio por entre os chamados “formadores de opinião”? Em que termos musicais e artísticos objetivos, podemos apontar suas falhas estéticas? Ou a sua condenação é moral, e não estritamente musical? Além do que, sob o imenso guarda-chuva que estes rótulos abrigam – pagode, axé, funk carioca etc – é tudo igualmente ruim? E quem são estes “formadores de opinião”, por que estão mais habilitados que outros para afirmarem seus preconceitos por aí? Algum dia darão voz àqueles que apreciam, que vivem e convivem de perto com estas manifestações?

Paro aqui por falta de espaço para desenvolver mais estas questões. Se calhar, volto em outra oportunidade para defender com maiores e melhores argumentos a tese de que a condenação a estas formas populares baseia-se apenas, nada mais nada menos, do que (1) em questões de gosto pessoal – o que não quer dizer que isso seja pouca coisa – e (2) na capacidade que alguns têm de fazer com que seus pontos de vista e seus valores sejam tidos como “mais certos” – isto sim é muita coisa.

P.S. Tenho que fazer justiça a textos e pessoas que me inspiraram e/ou ajudaram a desenvolver estes argumentos: Caetano Veloso e Hermano Vianna (principalmente devido a uma matéria que ele escreveu para o jornal Folha de São Paulo, em 25 de Abril de 1999, chamada exatamente “Condenação silenciosa: desprezo a gêneros como axé e pagode revela o despreparo e a intolerância da mídia”), mas também a Richard Shusterman e a seu instigante e belo livro Vivendo a arte, da Editora 34.

 

Nascidos em bordéis

Posted in Uncategorized on 28 de dezembro de 2007 by Eduardo Luedy

O que me incomoda em “nascidos em bordéis” (Born Into Brothels: Calcutta’s Red Light Kids, de 2004)? Sim, o que me incomoda no belo filme de Zana Briski e Ross Kauffman, ganhador de um Oscar por melhor documentário?

Exibimos este filme na última aula do dia 17/12/07, juntando as turmas de Arte-Educação com a de Novas Tecnologias da Comunicação e Informação (turma do professor Zé Mário). E me ocorreu de comentá-lo aqui no blog da nossa disciplina.

Sim, mas o que me incomoda em “nascidos em bordéis”?

Basicamente, o olhar colonial da fotógrafa norte-americana – que animada por intenções das mais nobres – vê quase sempre o “outro” – aqui representado pelas crianças indianas – como alguém inferiorizado pelas precárias condições de sobrevivência.

Não irei resenhar o filme aqui. O que me interessa é discutir o colonialismo que ressalta do filme de maneira inadvertida: a angústia e o inconformismo da fotógrafa que deseja ajudar as crianças, marcando e ao mesmo tempo orientando o desejo de um outro “reformado e reconhecível” (Bhabha apud Mclaren, 1993).

As mães das crianças, as prostitutas do Distrito da Luz Vermelha, falam pouco durante o filme. Ao não situar as famílias das crianças no interior de uma análise que nos ajudasse a melhor contextualizar a situação em que elas se encontram – tanto do ponto de vista cultural, quanto legal, somos pouco informados do que representa a prostituição na Índia contemporânea–, o documentário acaba por reforçar o olhar ocidental-colonizador, através da maneira como a fotógrafa lança o seu olhar indignado àquelas situações.

De fato, as mulheres adultas quase não falam. Não sabemos o que elas pensam acerca de sua própria condição, nem tampouco acerca da presença daquela fotógrafa norte-americana, como a compreendem e como a vêem – já que ela está trabalhando com seus filhos e filhas. Estas mulheres aparecem ora como repressoras/violentas, ora como displicentes, desinteressadas (ou apenas interessadas na força de trabalho das crianças). E é esta maneira de representá-las que reforça a nobreza de sua missão: retirar as crianças daquele convívio com a miséria, com a violência e com a prostituição (destino inevitável para algumas).

O esforço da fotógrafa para retirar as crianças de lá, levando-as para uma instituição na qual ficariam apartadas de seus familiares, é praticamente posto no filme como uma condição para a continuação de seu trabalho com elas. E isto me incomoda muito.

Impressionantemente, porém, e isto é o que há de mais interessante no filme, é que apesar dos esforços da fotógrafa, o filme não consegue aprisionar as crianças em seu olhar colonial. Algumas se rebelam e não aceitam os termos das condições (no caso, a remoção para a instituição, na qual ficariam por um longo período afastadas de seus familiares). Algumas impõem resistências, se rebelam, deixam de fotografar.

Mas se é interessante que o documentário não deixe de registrar estas tensões, ele peca por não oferecer uma análise do que significariam estes atos de resistência.

Apesar da nobreza das intenções, mas sobretudo das conquistas estéticas e pedagógicas da fotógrafa – sim, o trabalho de fotografia é belíssimo, além é claro do encantamento em permitir às crianças o direito aos seus próprios olhares, por intermédio dos registros que elas próprias fazem de seu entorno – penso que o documentário não consegue se libertar deste olhar colonial sobre as vidas daquelas crianças.

Segundo Rachel Silvey, o filme reforça esta atitude colonial também ao representar Zana, a fotógrafa, como alguém que sofre por aquelas crianças, que se sacrifica por elas, alguém de bom coração que as quer salvar. Para Silvey,

A ironia é que os objetivos e métodos de Zana são claramente atingidos às custas da estereotipização daquelas crianças (bem como de suas mães). … Dado que estes objetivos são aspectos centrais, o filme poderia ter desenvolvido uma instância critica mais auto-reflexiva acerca do discurso colonizador e da reificação do privilégio de raça/nação que o acompanha ao longo de tal narrativa (Silvey, 2005, p.363).

Ainda segundo Silvey,

Nunca escutamos o que aquelas mães pensam acerca da prostituição, assim como não sabemos muito acerca das qualidades diversas de outros trabalhos mal-remunerados ou de outros laços comunitários, algo que nos ajudaria a situar a história num contexto mais amplo. Pesquisas recentes (Kempadoo and Doezema 1998 ) têm apontado para o fato de que muitas mulheres deixam e retornam à prostituição a depender de fatores diversos que incluem a disponibilidade de outros serviços, salários relativamente melhores e a idade em que se encontram. Esta pesquisa contesta o ponto de vista (normalmente imposto de fora) de que a prostituição é necessariamente pior que outras formas de sub-empregos mal-remunerados e injustos. Além do que, enquanto Zana se encontra ocupada em voluntariamente salvar os destinos das crianças de um destino de prostituição, levando-as para uma instituição escolar, percebemos que parte das crianças e suas mães desejam viver juntas. É crucial questionar como o filme obscurece (e assim inadvertidamente contribui para ampliar) as desigualdades estruturais e globais mais amplas que silenciam e desabilitam as vozes das crianças e mulheres na Índia (Silvey, 2005, p.363).

Aguardo comentários.

Eduardo Luedy

Referências:

McLaren, Peter. (1993). Pós-modernismo, pós-colonialismo e pedagogia. In Silva, Tomaz Tadeu (org.) Teoria educacional crítica em tempos pós-modernos. Porto Alegre: Artes Médicas. Pp. 9-39.

Silvey, Rachel. (2005). “Review of the Film Born into Brothels.” Children, Youth and Environments 15(1): 362-363. Acessado em 2007 de http://www.colorado.edu/journals/cye/.

Por que discutir homossexualidade?

Posted in Uncategorized on 2 de dezembro de 2007 by Eduardo Luedy

Nesta última sexta-feira de novembro, 30/11/2007, estivemos no Grupo Gay da Bahia, como parte de uma das atividades programadas (uma “viagem de campo”) para a disciplina Educação e Diversidade Cultural. No que se segue pretendo situar as considerações teóricas envolvidas nos debates acerca da diversidade sexual, basicamente tentando justificar a relevância desta temática para a disciplina. De maneira resumida: a questão que buscarei responder é, por que tratar de questões que envolvem a homossexualidade? Tentarei demonstrar que apenas tentar repudiar preconceitos e/ou  erigir um outro olhar, talvez mais benevolente ou tolerante à homossexualidade, constituem aspectos apenas secundários nesta minha argumentação.

O pessoal é também político.

O que pretendo ressaltar é que as questões que envolvem a diversidade sexual – dentre elas, fundamentalmente, o questionamento radical das posições fixas de sujeito e, consequentemente, a própria noção de “normalidade” – não deveriam ser tratadas apenas como questões íntimas, pessoais, de “escolha individual”, como se fossem questões “menores” em relação às questões estruturais “mais fundamentais”, tais como as que se referem à organização e à divisão social do trabalho – o que, obviamente, numa perspectiva crítica, nos remeteria à problematização das desigualdades sociais e das relações de poder e dominação entre as classes sociais.

Portanto, mais do que uma questão de democracia ou de defesa das liberdades individuais, a diversidade sexual tem nos confrontado com uma outra ordem de problematizações. Problematizações implicadas profundamente em questões sociais, culturais e políticas e que dizem respeito muito intensamente à constituição de nossas identidades bem como à micro-política de governo de nossas subjetividades.

Tentando exemplificar: a homossexualidade, para muitos de nós, tornava-se um “problema” a partir do momento em que, ainda crianças, percebíamos que certas atitudes poderiam (ou deveriam) merecer uma repressão social e uma condenação moral extremamente séria, intensa, por vezes até violenta. Obviamente que o peso de tal sanção moral correspondia à noção de que ser “viado”, ou comportar-se como tal, era um pecado e um desvio gravíssimo. Aliás, a palavra viado carrega uma carga imensa de pejoratividade.

O que podemos tentar, agora, nos perguntar é por que alguns indivíduos passam a vivenciar relações homoeróticas, num contexto social, cultural e político quase sempre adverso, contrário, hostil, até mesmo violento, em seu repúdio à homossexualidade. Tal comportamento não pode deixar de ser compreendido como algo que se dá apenas no plano individual, mas sobretudo na dimensão de uma política que tem de ser compreendida no contexto da sociedade mais ampla. Enfim, o que levaria alguém a contrariar a ordem vigente da “normalidade”? Mas também e para além disso: o que vem a ser a “normalidade”? Como ela se estabelece? Que implicações há para os que não se encaixam?

Situadas as considerações teóricas, na perspectiva da disciplina, voltemos à nossa visita ao GGB. Gostaria, pois, que vocês alunas (e Diego, único rapaz da turma) se manifestassem, escrevendo aqui. Gostaria de ler as impressões de vocês acerca da relevância da visita e da conversa com Otávio, um dos corrdenadores do Grupo Gay da Bahia, que nos recebeu de maneira tão atenciosa. A conversa com Otávio exemplifica bem as inextrincáveis articulações entre o pessoal e o político. Podemos pensar, por exemplo, em como poderíamos articular nossas impressões sobre o filme Transamérica, com a leitura do texto indicado (de Mott) e com a visita ao GGB. Sintam-se à vontade para escrever.

No próximo post, deverei colocar também as minhas impressões.

 

Eduardo Luedy

P.S.: há diversos texto de Luiz Mott, o presidente do GGB, tanto no próprio site do grupo quanto em sua página pessoal. Recomendo um fortemente: O que todo cristão deve saber sobre homossexualidade”.

 

 

As “virgens juradas”: para discutirmos as noções de identidade e gênero

Posted in Uncategorized on 15 de novembro de 2007 by Eduardo Luedy

Foi na ultima edição do Fantástico (rede globo), que vi a matéria – interessantíssima – sobre mulheres na Albânia que, seguindo uma antiga tradição local, assumiram uma identidade masculina (ou o que reconhecemos como “identidade masculina”). Leiam. Servirá de mote para discutirmos posteriormente as noções de identidade, gênero e diferença. Retorno depois com indicações bibliográficas para melhor problematizarmos tais temáticas.

 

Segue a matéria:

 

 

12.11.2007
As virgens juradas

O isolamento foi capaz de esconder um fenômeno ainda hoje desconhecido, que teve origem séculos atrás, no norte da Albânia: mulheres que se comportam como homens. Elas cortam os cabelos, vestem-se como machos e fazem um juramento de virgindade, porque esta é a tradição.

“Eu sou uma virgem jurada”, conta uma delas.

Saímos de Tirana, capital do pequeno país balcânico de 3,5 milhões de habitantes. A caminho do norte, onde vivem as mulheres-homens, a nação islâmica tem mais cor. Nessas montanhas, um dia existiu um código de honra que ainda hoje inspira os moradores do lugar.

Conhecemos Lule em uma igreja. Aos 53 anos, a encanadora está desempregada. Lule diz que no passado as mulheres do campo não tinham nenhum direito. Tornar-se homem era uma tentativa desesperada para sobreviver ou fugir da exploração.

“Para o macho, a vida é mais simples. A mulher tinha que trabalhar em casa e na terra. Os esforços físicos eram feitos pelas mulheres, mais escravas do que seres humanos”, explica Lule.

Elas eram impedidas até de herdar propriedades. Os homens faziam livremente o que queriam, quando desejavam.

A conversão é prevista no Kanun, o código de honra medieval, de ética cristã, que contém as regras criadas pelos camponeses do norte da Albânia. O Kanun reconhece o direito da mulher de proclamar-se homem, de comportar-se socialmente como um homem e de conquistar todos os direitos reservados exclusivamente aos homens. O preço é a renúncia definitiva à maternidade, ao casamento, ao sexo. Uma virgem jurada deve manter uma vida celibatária para sempre.

Foi assim que, aos 15 anos, Lule vestiu as calças compridas e aprendeu a conduzir um trator. Os pais ficaram felizes. Tinham dez filhas e apenas um menino. Lule tornou-se o segundo homem da família.

Quando guiou pela primeira vez, sentiu o mundo nas mãos. Se ela tem namorada? “Não”, responde. “O meu afeto vai para os amigos”.

Vida tem 70 anos, vividos com a liberdade de um homem de sociedade patriarcal e com a castidade de um monge. “Talvez eu seja fêmea, mas não me sinto mulher. Eu me considero mais um braço para trabalhar e ajudar”, diz.

Vida passou os anos caçando e lidando com motores. Não se arrepende. Para fugir de um futuro marido imposto sem ferir a honra da família, fez os votos de homem.

“Quando tomei a decisão, 55 anos atrás, acho que choquei as pessoas, mas as mulheres já usavam calças embaixo das saias na lavoura. Fui também a primeira a andar de bicicleta neste povoado”, lembra.

Lendita, de 46 anos é muçulmana. Não vai à mesquita e nunca leu o Alcorão. Vive modestamente com a pensão da mãe. Foi por ela que muito cedo mudou de identidade.

“Eu tinha 5 anos. Aconteceu uma tragédia na minha família. O meu pai morreu e então assumi o lugar dele para cuidar da minha mãe, porque ela não tinha filho homem”, explica.

Lendita passou sete anos na prisão por ter falado mal do regime stalinista. Hoje escreve suas histórias do cárcere. Gosta do que era proibido às mulheres, como o raki, a cachaça albanesa.

Sem luz elétrica, Vida divide com amigos raki e tabaco. Na Albânia, elas são menos de 30, talvez as últimas virgens juradas.

“Não se pode voltar atrás. No passado, o juramento era feito diante das 12 pessoas mais velhas do povoado. Significava um papel assumido na sociedade, que não podia ser abandonado sem punição. O desprezo seria tão grande que era pior do que morrer”, observa o sociólogo Leke Sokóli.

“Jurei para mim mesma. E é para toda a vida”, garante Lule.

Encontre essa reportagem em:
http://fantastico.globo.com/Jornalismo/Fantastico/0,,AA1661731-4005,00.html

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